quarta-feira, 13 de outubro de 2010

PSD arrisca mais do que o PS se precipitar uma crise política

in Publico de 12-10-2010


 PSD arrisca mais do que o PS se precipitar uma crise política

Por Filomena Fontes

O sociólogo Manuel Villaverde Cabral diz que um "basta à chantagem" por parte de Pedro Passos Coelho oferece várias saídas


No meio de uma radicalização onde não se descortina recuo, PSD e PS travam uma luta de poder em torno do Orçamento do Estado (OE). No deve e haver deste já longo pingue-pongue político, José Sócrates e Pedro Passos Coelho estão sob o escrutínio cerrado. E o país em suspenso. O PÚBLICO ouviu sociólogos e politólogos sobre os contornos da crise política que se adensa e que pode mesmo desembocar em eleições antecipadas. E nem todos estão de acordo.

Desdramatizando um eventual chumbo do Orçamento, o sociólogo Manuel Villaverde Cabral entende que as eleições podem ter a virtude da "clarificação política", interrompendo "um ciclo de 12 anos de governação socialista que levou o país à estagnação económica". A radicalização que tomou conta do discurso político dos dois partidos é, para este sociólogo, a expressão clara de um governo minoritário que se comporta como se tivesse uma maioria absoluta, "liderado por uma pessoa que faz do autoritarismo uma imagem de marca". Daí que olhe para a eventual reprovação do OE por parte de Passos Coelho como "um basta à chantagem", que abre várias saídas. Seja obrigar Sócrates a rever o Orçamento, por intervenção directa do Presidente da República, forçando o entendimento com outros partidos; seja a demissão de Sócrates ("ficando lá a tomar conta do sarilho que arranjou até novas eleições"); ou a formação de um governo de iniciativa presidencial. "O país não vai acabar e, em compensação, pode acabar esta pequena ditadura do engenheiro Sócrates, o que, apesar de tudo, pode não ser uma coisa má", ajuíza.

Teimosia e danos

O politólogo António Costa Pinto tem opinião distinta. Evidencia os "danos" que "a teimosia" em torno da aprovação do Orçamento já trouxeram para a actual direcção do PSD. Intriga-o o facto de Passos Coelho persistir na estratégia quando sabe que a aplicação das medidas, duras, de austeridade deixarão os socialistas numa situação de perda que poderia ser capitalizada pelo PSD. "O Governo está em fim de ciclo e dificilmente haverá recuperação do PS em eleições antecipadas". Costa Pinto alude à divisão nas elites do PSD (com ex-líderes a pressionarem a aprovação do OE) e à percepção de que os portugueses "são a favor deste pacto, porque são antipartidos e acham que os partidos devem juntar-se em tempos de crise". Em conclusão, "a jogada é bem arriscada por parte do PSD perante a sociedade, as forças vivas do centro-direita, a instituição presidencial..."

"Num momento em que as elites políticas, sociais e empresariais recomendam um esforço de responsabilidade política tendo em conta o superior interesse do país, o PSD corre mais riscos", vaticina o politólogo Manuel Meirinho Martins. Adverte para o facto de só daqui a muitos meses ser possível haver eleições antecipadas. Passos Coelho teria de arrostar com uma campanha de vitimização por parte de Sócrates, à volta de quem o PS se uniria, e com o provável "fraccionismo" a rebentar no interior do seu partido. "Todo este processo foi conduzido pelo PS como um projecto de conservação de poder. As medidas de austeridade foram anunciadas no início de Setembro, menorizando o espaço de reacção dos vários actores políticos", quando já não podiam ser convocadas eleições, aponta o politólogo. E exemplifica: desde o PSD (entricheirando-o na inevitabilidade de aprovar o Orçamento) ao Presidente da República, que não pode convocar eleições, até ao próprio Manuel Alegre, que ficou com "o seu espaço de contestação limitado ou praticamente nulo". 

Sem dúvidas quanto ao preço que "este braço-de-ferro" tem para o país, o politólogo André Freire compreende a dificuldade do PSD em partilhar a responsabilidade de "um programa assimétrico de austeridade" do Governo socialista. "Teoricamente há várias soluções possíveis [para aprovar o OE]. Mas, na prática, há o PSD", nota. E prevê também que se a opção for o chumbo, os sociais-democratas poderão ser penalizados.

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